
Gravidade
Junho 8, 2009
Texto: Diego Ferreira;
Ilustração: Escher.
Os gritos articulados manchavam as paredes do quarto, por onde quer que o hálito, diluído no pouco ar que nos acompanhava, ousasse tocar. Enquanto um vocabulário furioso atingia-me, lançado por uma distância menor de 20 centímetros, recordava-me do som de todas as palavras ditas, pronunciadas muito antes, infinitas vezes, por muitos outros. Também a forma como estavam concatenadas me era familiar, fazendo questionar a existência daquela boca colérica. Pensei até no fato de que estava, eu, impregnado de palavras. Mesmo meus mais genuínos pensamentos se sujeitavam a elas para ganharem forma, até meu corpo gasto tinha seus contornos redutíveis.
Desperto pela terceira cusparada acidental, deixei que me escapasse um sorriso ao canto da boca. Ninguém jamais entenderia meus dentes exibidos: nem mesmo eu. A porta se bateu atrás de mim, os pesados passos de rancor se calavam progressivamente.
Quando pequeno, pensava, incansavelmente, nas palavras que aprendia. O céu, antes de escrito, parecia-me mais mágico e assustador. Me encatava o mundo, antes de nomeá-lo, bem como o grito, como o que a pouco escutava. Me encantavam as pessoas, antes de conhecê-las, bem como tudo o de intangível que produziam. Abreviaram os sentidos, abreviaram o homem, abreviaram a vida.
Ainda catava os pedaços do meu corpo jogados pelo chão, quando caí desfalecido com um violento golpe na nuca. Era a gravidade, ela sempre vence.
Texto formidável, incrível. Bravo, bravo!