
La dernière minute
Junho 8, 2009
Texto: Daniela Lima;
Foto: Chris Doyle
Pisei na linha da casa sete. Perdi. Estava sentada na entrada da mercearia esperando a minha vez, quando a chuva começou a cair. Chegar ao céu ficou mesmo para outro dia – para outra época. Em poucos minutos, a calçada virou um mar de cores: meu passado de giz de cor e Amarelinha escorrendo rua do Oriente abaixo.
Na entrada da mercearia, havia um saco de batatas; em cima dele: o gato. Dormindo, claro. Minha vó tomava um cálice de vinho do Porto no canto do balcão, quando tentei pegar uma barriguinha-de-freira. “Só depois do almoço”. Senti inveja da falta de limites do gato.
Dez anos depois, eu tinha dezesseis e levava uma vida de gato e xadrez. “Xeque-mate”. Rei e duas Torres contra Rei. Ele tinha o dobro da minha idade. Rei e Dama contra Rei. Minhas mãos estavam geladas. Rei e Torre contra Rei. Estávamos sozinhos na casa dele. Rei e dois Bispos contra Rei. O lençol tinha cheiro de lavanda. Rei, Bispo e Cavalo contra Rei. “Ouviu?”, “O quê?”, “Xeque-mate”.
A mercearia fechou. O jardim da casa da minha vó diminui – mas não o suficiente para caber na minha caixa de lembranças; não o suficiente para caber na minha realidade.
Ele me deu um livro de estratégias. Agora só perco – na vida e no xadrez – quando quero. E muitas vezes quero me perder nas pessoas que fui e nas coisas que perdi.
Acaricio o meu passado como quem acaricia alguém que está dormindo.
O céu só cabe nos nossos pés. E, é verdade, viver de passado é mais estratégico. O futuro, pra mim, sempre teve a cara de Belzebu.
(gosto muito de ler Daniela Lima, desde os fatídicos 2005)
Na entrada da mercearia, havia um saco de batatas; em cima dele: o gato.
,;:.
(um gato)
rolam uns azulejos? que gracinha
me perder em você é algo que sempre me faz bem.