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O sonho

Junho 11, 2009

Bosch Jardin des delices detail

Texto: Raul Brandão;
Ilustração: Bosch.

Chove. Cada vez vejo mais turvo, cada vez tenho mais medo. Estamos enterrados em convenções até o pescoço: usamos as mesmas palavras, fazemos os mesmos gestos. A poeira entranhada sufoca-nos. Pega-se. Há dias em que não distingo estes seres da minha própria alma; há dias em que através das máscaras vejo outras fisionomias, e, sob a impassibilidade, dor; há dias em que o céu e o inferno esperam e desesperam. Pressinto uma vida oculta, a questão é fazê-la vir à supuração.

Esta manhã de chuva é um minuto no rodar infinito dos séculos, e os seres que passam meras sombras. Tudo isso me pesa e pesa-me também não viver. Do fundo de mim mesmo protesto que a vida não é isto. A árvore cumpre, o bicho cumpre. Só me afundo soterrado em cinza. Terei por força de me habituarà aquiescência e à regra? Crio cama, e todos os dias sinto a usura da vida e os passos da morte mais fundo e mais perto.

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Animal Tropical

Junho 9, 2009

araki

Texto: Pedro Juan Gutiérrez;
Foto: Nobuyoshi Araki
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(…) Por uma conjunção de caminhos que se entrecruzaram muito bem, passei o Natal de 1998 nos Alpes. Fiquei com uma amiga fotógrafa em um chalé de madeira no meio das montanhas, coisa que pode parecer invenção de romancinho barato. Mas não. Foi exatamente assim. Uma tarde nublada, cinzenta e com vento, bebi uns uísques enquanto minha amiga tirava fotos de mim. O álcool me subiu à cabeça e comecei a tirar a roupa. É sempre assim: quando alguém olha para mim pelado, me sobe o pau. E mais ainda na frente de uma câmera. Claro. As fotos ficaram muito boas: eu na neve, completamente nu, com a vara tesa. Minha amiga tirou cópias em sépia e fiquei realmente tão juvenil, com o ego tão ereto e atraente, que não resisti e mandei uma das fotos para Agneta como presente de Natal.

Sou um sedutor. Eu sei. Assim como existem os alcoólicos irrecuperáveis, os jogadores, os viciados em cafeína, em nicotina, em maconha, os cleptomaníacos etcétera, sou viciado em sedução. Às vezes o anjinho que tenho dentro de mim tenta me controlar e diz assim: “Não seja tão filho-da-puta, Pedrito. Não percebe que está fazendo essas mulheres sofrerem?”. Mas aí aparece o diabinho e o contradiz: “Vá em frente. Elas ficam felizes assim, nem que seja só por um tempo. E você também fica feliz. Não se sinta culpado”.

É um vício. Sei que a sedução é um vício igual a outro qualquer. E não existe nenhum Sedutores Anônimos. Se existisse, talvez pudessem fazer algo por mim. Se bem que não tenho certeza. Seguramente eu inventaria pretextos para não comparecer a suas sessões e ter de ficar lá na caradura na frente de todo mundo, botar a mão na Bíblia e dizer serenamente: “Meu nome é Pedro Juan. Sou um sedutor. E faz hoje vinte e sete dias que não seduzo ninguém”.

Em março, já estava de volta a Havana. Muito tranqüilo. Pintando. Experimentando uns materiais de reciclagem. Quero dizer, o lixo que pegava nas esquinas. Tinha muito material à minha disposição. De tarde, bebia rum, fumava meus charutos, seduzia alguma negra, alguma mulata. Adoro as negras. Não vou dizer que os negros são uma raça superior porque isso seria fascismo invertido, mas estou convencido de que é preciso se misturar mais. Provocar a mestiçagem. Fabricar mais mulatas e mulatos. A mestiçagem salva. Por isso gosto das negras. Bom, não exatamente por isso, quando a gente trepa não fica pensando na salvação de ninguém, porra nenhuma. Mas tenho um par de filhas mulatas encantadoras que corroboram essa idéia.

Enfim, já em março Agneta estava organizando para mim, lá de Estocolmo, outra viagem à Suécia. Ela é de uma eficácia perfeita, mas eu sentia que estava um pouco alterada. Os poemas, os contos da Trilogia e a foto de mim pelado no meio da neve alpina haviam transtornado os seus ritmos neurais. Me telefonava quase todo dia e me dizia coisas assim: “Não consegui dormir esta noite. Você está me perturbando. É verdade tudo o que você escreve?”.

E eu respondia: “É. Tenho pouca imaginação”.

E ela: “Ahh, você vem na primavera, Pedro Juan? Está tudo pronto. Vem?”.

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Gravidade

Junho 8, 2009

relativity
Texto: Diego Ferreira;
Ilustração: Escher.

Os gritos articulados manchavam as paredes do quarto, por onde quer que o hálito, diluído no pouco ar que nos acompanhava, ousasse tocar. Enquanto um vocabulário furioso atingia-me, lançado por uma distância menor de 20 centímetros, recordava-me do som de todas as palavras ditas, pronunciadas muito antes, infinitas vezes, por muitos outros. Também a forma como estavam concatenadas me era familiar, fazendo questionar a existência daquela boca colérica. Pensei até no fato de que estava, eu, impregnado de palavras. Mesmo meus mais genuínos pensamentos se sujeitavam a elas para ganharem forma, até meu corpo gasto tinha seus contornos redutíveis.

Desperto pela terceira cusparada acidental, deixei que me escapasse um sorriso ao canto da boca. Ninguém jamais entenderia meus dentes exibidos: nem mesmo eu. A porta se bateu atrás de mim, os pesados passos de rancor se calavam progressivamente.

Quando pequeno, pensava, incansavelmente, nas palavras que aprendia. O céu, antes de escrito, parecia-me mais mágico e assustador. Me encatava o mundo, antes de nomeá-lo, bem como o grito, como o que a pouco escutava. Me encantavam as pessoas, antes de conhecê-las, bem como tudo o de intangível que produziam. Abreviaram os sentidos, abreviaram o homem, abreviaram a vida.

Ainda catava os pedaços do meu corpo jogados pelo chão, quando caí desfalecido com um violento golpe na nuca. Era a gravidade, ela sempre vence.

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La dernière minute

Junho 8, 2009

2046
Texto: Daniela Lima;
Foto: Chris Doyle

Pisei na linha da casa sete. Perdi. Estava sentada na entrada da mercearia esperando a minha vez, quando a chuva começou a cair. Chegar ao céu ficou mesmo para outro dia – para outra época. Em poucos minutos, a calçada virou um mar de cores: meu passado de giz de cor e Amarelinha escorrendo rua do Oriente abaixo.

Na entrada da mercearia, havia um saco de batatas; em cima dele: o gato. Dormindo, claro. Minha vó tomava um cálice de vinho do Porto no canto do balcão, quando tentei pegar uma barriguinha-de-freira. “Só depois do almoço”. Senti inveja da falta de limites do gato.

Dez anos depois, eu tinha dezesseis e levava uma vida de gato e xadrez. “Xeque-mate”. Rei e duas Torres contra Rei. Ele tinha o dobro da minha idade. Rei e Dama contra Rei. Minhas mãos estavam geladas. Rei e Torre contra Rei. Estávamos sozinhos na casa dele. Rei e dois Bispos contra Rei. O lençol tinha cheiro de lavanda. Rei, Bispo e Cavalo contra Rei. “Ouviu?”, “O quê?”, “Xeque-mate”.

A mercearia fechou. O jardim da casa da minha vó diminui – mas não o suficiente para caber na minha caixa de lembranças; não o suficiente para caber na minha realidade.

Ele me deu um livro de estratégias. Agora só perco – na vida e no xadrez – quando quero. E muitas vezes quero me perder nas pessoas que fui e nas coisas que perdi.

Acaricio o meu passado como quem acaricia alguém que está dormindo.

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O Segundo Sexo.

Junho 8, 2009

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Texto: Patrizia Landi;
Foto: Cartier-Bresson.

Comprovo em mim o movimento que previra Simone de Beauvoir: “Não se nasce mulher, torna-se mulher”. Uma oração apenas – e uma miríade de interpretações.

Quanto mais me torno mulher menos características femininas possuo. Acho graça: cada alicerce adquirido pressupõe subtração de fragilidade. E de tijolo em tijolo fez-se uma fundação sólida. Existe encantamento, contudo: endurecer não prescinde enxergar a beleza de um dia de sol.

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Luso

Junho 8, 2009

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Texto: Tião Martins;
Foto: Alison Brady
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ai que ainda tenho
um pouco do sangue
lusitano
não cometo erros
faço enganos

ai que ainda tenho
um pouco do jeito
lusitano
não sofro pouco
logo me dano

ai que ainda sonho
um pouco o sonho
lusitano
não sou só um tião
sou dom sebastião

se não me esgano.

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Perto do fim

Maio 29, 2009

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Texto: Os Maias, Eça de Queirós;
Foto: Nan Goldin
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– E que somos nós? – exclamou Ega. – Que temos nós sido desde o colégio, desde o exame de latim? Românticos: isto é, indivíduos inferiores que se governam na vida pelo sentimento, e não pela razão…

Mas Carlos queria realmente saber se, no fundo, eram mais felizes esses que se dirigiam só pela razão, não se desviando nunca dela, torturando-se para se manter na sua linha inflexível, secos, hirtos, lógicos, sem emoção até ao fim…

Creio que não – disse o Ega. – Por fora, à vista, são desconsoladores. E por dentro, para eles mesmos, são talvez desconsolados. O que prova que neste lindo mundo ou tem de se ser insensato ou sem sabor…

– Resumo: não vale a pena viver…

– Depende inteiramente do estômago! – atalhou Ega. Riram ambos.

Depois Carlos, outra vez sério, deu a sua teoria da vida, a teoria definitiva que ele deduzira da experiência e que agora o governava. Era o fatalismo muçulmano. Nada desejar e nada recear… Não se abandonar a uma esperança – nem a um desapontamento. Tudo aceitar, o que vem e o que foge, com a tranquilidade com que se acolhem as naturais mudanças de dias agrestes e de dias suaves. E, nesta placidez, deixar esse pedaço de matéria organizada que se chama o Eu ir-se deteriorando e decompondo até reentrar e se perder no infinito Universo… Sobretudo não ter apetites. E, mais que tudo, não ter contrariedades